Escolher profissão num sistema de ensino que ninguém te explicou

No Brasil você sabia como funcionava. Ensino médio, vestibular, faculdade. Podia discordar do sistema, mas conhecia as regras.

Aqui não. Seu filho chega numa idade em que precisa escolher uma direção, e você descobre que existem trilhas com nomes que você nunca ouviu, que algumas decisões fecham portas mais cedo do que fechariam no Brasil, e que a escola espera que a família participe de uma conversa para a qual ninguém te deu o vocabulário.

O problema não é a escolha, é a falta de mapa

Escolher profissão é difícil em qualquer lugar. Aos quinze anos ninguém sabe quem é.

Mas há uma diferença entre escolher com informação e escolher no escuro. A família brasileira que chegou há pouco costuma estar no escuro, e isso gera dois erros comuns.

O primeiro é transportar o mapa do Brasil. Assumir que as carreiras de prestígio lá são as mesmas aqui, que o caminho é sempre universidade, que formação técnica é plano B. Nada disso se sustenta no contexto europeu, onde formações técnicas costumam ter reconhecimento e remuneração muito diferentes do que têm no Brasil.

O segundo é decidir pela pressa. Como o sistema pede escolha cedo, a família escolhe o que parece mais seguro, sem tempo de investigar se combina com o filho.

O que a orientação vocacional faz

Não é um teste que devolve uma profissão. Isso não existe, e quem promete está vendendo.

O processo tem três partes que trabalham juntas.

Avaliação de interesses e aptidões, com instrumentos aplicados por psicóloga. Serve para nomear com precisão o que a pessoa já sente de forma vaga: com que tipo de problema ela gosta de lidar, em que ambiente rende mais, o que a esgota.

Conversa clínica. É onde aparecem as coisas que nenhum teste pega. O medo de decepcionar os pais. A escolha feita para agradar. A vergonha de querer algo que a família não valoriza. Numa família imigrante isso pesa mais, porque existe frequentemente a sensação de que o sacrifício dos pais precisa ser justificado.

Pesquisa concreta sobre os caminhos possíveis aqui. Quais formações existem de fato, o que elas exigem, para onde levam, quanto duram. É a parte que a família sozinha tem mais dificuldade de fazer, porque exige entender um sistema de fora.

Não é só para adolescentes

Uma parte grande de quem procura orientação vocacional são adultos.

Gente que tinha uma carreira no Brasil e descobriu que aqui ela não existe do mesmo jeito. Gente que parou de estudar há quinze anos e está pensando em voltar. Gente que trabalha em algo que dá conta das contas mas esvaziou por dentro.

A pergunta muda de “o que eu vou ser” para “o que faz sentido agora, com a vida que eu tenho”. É uma pergunta mais difícil, e mais concreta.

Como saber se é hora

Alguns sinais de que vale procurar:

  • A escolha está próxima e a conversa em casa vira briga
  • Seu filho diz que não sabe, e você percebe que ele realmente não sabe
  • Você está prestes a decidir por ele porque o prazo está acabando
  • Você mesma está considerando voltar a estudar e trava na primeira pergunta

O processo é curto, com um número definido de encontros, e termina numa devolutiva com os caminhos mapeados.

Se estiver nesse momento, escreva contando a situação. Retorno indicando o que faz mais sentido.

Tatiana Pelissari
Tatiana Pelissari Psicóloga e coach de carreira. Atende em português, online e presencial em Bruxelas.

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